Dispersa
Caetano cantou: "O pensamento parece uma coisa à toa, mas como a gente voa quando pára pra pensar". É verdade. Às vezes, quando estou no serviço, me dão aqueles quinze minutos clássicos de bobeira que acometem todo mundo. Penso nas nuvens no céu, no sorriso de certo menino, na família daquela advogada que morreu na cratera do metrô, no filme novo do Brad Pitt que estou a fim de ver... E quando volto do mundo da lua, meu caixa está com diferença e lá vou eu justificar a fama (quase sempre injusta) sobre a inteligência das loiras pagar outro prejuízo cometido pela distraída aqui! Estou na profissão errada, certamente, mas o que posso fazer se meu diploma de formada em Letras não serve para muita coisa além de enfeitar a parede do meu quarto? Bem que mamãe falou que professora já foi uma profissão respeitada neste país. Mas sou sonhadora, sou aquariana, sou idealista! Ih, olha a Alice aqui voltando a devanear, se perdendo nos oceanos da lua...


Olhar no fundo de outro olhar é como mergulhar em um abismo. Pular de um bungee jump no qual a corda talvez seja maior do que a distância até o chão. Eu já fiz isso, e posso dizer que a queda não foi das mais amigáveis. E esse trauma que é como uma cicatriz que insiste em não fechar faz as pernas tremerem, minha alma inconscientemente encolher-se, mãos abraçando joelhos, num canto na penumbra do meu coração. Será que um dia ela voltará a se estender sob o sol da esperança? Enquanto isso, atenho-me a baixar a cabeça, os olhos tímidos feito menininha no balanço de um playground, as pernas sem tocar o chão, balançando perdidas no ar...